As respostas automáticas do corpo
Hoje falo-vos daqueles momentos em que sentimos que reagimos “demais”, “mal”, “fora de tempo”…
A verdade é que muitas das nossas reações não nascem do momento que estamos a viver.
E, muitas vezes, nem são escolhidas.
Nem sequer passam pela mente.
São movimentos antigos do corpo, quase silenciosos, que aparecem para nos proteger, mesmo quando já não há perigo real.
Perceber isto muda tanta coisa…
Porque é muito diferente dizer “reagi mal” ou perceber que o meu corpo respondeu antes de eu conseguir entender o que estava a acontecer.
E aqui entra um ponto importante:
o corpo responde em milissegundos, muito antes de termos linguagem, análise ou consciência.
É o sistema nervoso a cumprir a sua função mais básica: a garantir sobrevivência.
Luta, fuga, congelamento e alerta constante:
são quatro caminhos que o corpo encontrou, um dia, para sobreviver ao mundo.
E o mais curioso (e mais terno) é que estes caminhos nascem cedo.
Nascem quando ainda não tínhamos palavras, nem ferramentas, e talvez nem espaço para sermos ouvidas, sentidas, amparadas.
Por isso, quando hoje te irritas sem perceber porquê, ou te afastas de alguém que amas, ou congelas numa conversa importante, ou ficas num estado de vigilância que te esgota…
Não é “drama”.
Não é “sensibilidade a mais”.
Não é “não saber controlar”.
É apenas o corpo a dizer:
“Eu já vivi isto de outra forma. E foi difícil. Deixa-me proteger-te como sei.”
A luta aparece quando precisamos de afirmar a nossa existência.
A fuga surge quando é demasiado estar presente.
O congelamento quando não vemos saída.
O alerta constante quando o corpo aprendeu que o mundo é imprevisível.
Nada disto é falha.
É história.
E quando começamos a reconhecer estes estados,
sem julgamento e sem pressa, algo abre espaço dentro de nós.
O corpo começa a acreditar que agora é diferente.
Que não estamos sozinhas.
Que há lugar para pousar e respirar.
E é aí, nesse ponto tão simples e tão profundo, que o processo terapêutico começa a transformar.
Com presença,
Susana Amaral