Limites sem Culpa
porque dizer “não” ainda dói tanto (especialmente no feminino)
Há pessoas que dizem “não” com naturalidade.
E há pessoas que, só de pensarem em dizer “não”, sentem o corpo contrair.
Surge um aperto no peito, um nó no estômago, uma inquietação difícil de explicar.
E quase sempre aparece a mesma sensação: culpa.
Na minha experiência como Terapeuta Transpessoal, esta dificuldade surge com muita frequência no feminino, sobretudo em contextos familiares: com pais, filhos, companheiros, irmãos, sogros, colegas de trabalho.
Não porque as mulheres não saibam colocar limites,
mas porque, muitas vezes, foram ensinadas a manter a harmonia à custa de si próprias.
Quando dizer “não” parece perigoso:
Para muitas mulheres, dizer “não” não é apenas uma escolha. É um risco.
Risco de magoar.
Risco de desiludir.
Risco de ser vista como egoísta.
Risco de criar conflito.
Em muitas histórias de vida, agradar foi uma forma de pertença.
Ser disponível, compreensiva, adaptável, foi uma forma de ser aceite.
Por isso, quando hoje surge a vontade de colocar um limite, o corpo reage como se algo estivesse errado, mesmo quando o limite é justo e necessário.
A culpa não é sinal de erro
É importante dizer isto com clareza:
sentir culpa não significa que estás a fazer algo errado.
Na maioria das vezes, a culpa é um sinal de que estás a sair de um padrão antigo.
Um padrão em que as necessidades dos outros vinham sempre primeiro.
O sistema nervoso interpreta essa mudança como ameaça:
“E se perder a ligação?”
“E se o outro ficar zangado?”
“E se eu for rejeitada?”
O corpo entra em alerta.
E é por isso que colocar limites não é só uma questão de “decisão mental”.
Limites são um processo corporal
Muitas mulheres dizem-me em consulta:
- “Eu sei que devia dizer não… mas o corpo não deixa.”
E isso faz sentido.
Se o corpo aprendeu, ao longo dos anos, que dizer “sim” era mais seguro, vai precisar de tempo e de segurança para aceitar algo novo.
Colocar limites é um processo que envolve:
consciência
corpo
emoção
história relacional
Não se faz à força.
E não se aprende apenas com frases prontas.
O ambiente familiar: onde é mais difícil
É no ambiente familiar que esta dificuldade aparece com mais intensidade.
Porque ali não estão apenas as pessoas do presente.
Estão as histórias antigas, os papéis, as expectativas, as lealdades invisíveis.
Ser “a que aguenta”,
“a que resolve”,
“a que não cria problemas”.
Quando tentas mudar isso, mesmo de forma saudável, o corpo pode reagir com medo e culpa, não porque estás errada, mas porque estás a sair de um lugar conhecido.
Começar pequeno: limites possíveis
Colocar limites não começa com grandes confrontos. Começa com micro-limites que o teu corpo consegue sustentar.
Por exemplo:
“Agora não consigo responder.”
“Preciso de pensar e depois digo.”
“Hoje não me é possível.”
Limites conscientes não precisam de longas explicações.
Quanto mais explicamos, mais tentamos aliviar a culpa.
Um limite claro, dito com presença, é suficiente.
Limites são uma forma de cuidado
Colocar limites não é afastar os outros. É aproximar-te de ti. É aprender a ficar contigo mesmo quando o outro não gosta. É sair da sobrevivência relacional e entrar na honestidade.
E isso, muitas vezes, precisa de apoio.
Quando procurar ajuda
Se sentes que:
dizer “não” te causa ansiedade ou culpa intensa
o corpo entra em alerta sempre que tentas colocar limites
te sentes constantemente sobrecarregada em relações familiares
o acompanhamento terapêutico pode ajudar a criar segurança interna,
para que os limites deixem de ser uma luta e passem a ser um gesto natural de cuidado.
Colocar limites é um processo. E não há nada de errado contigo por ainda ser difícil. Talvez o teu corpo só esteja a pedir tempo, escuta e apoio.
Se este tema te toca, ao longo da semana vou partilhar práticas simples
para trabalhar os limites a partir do corpo.
E se sentires que precisas de apoio mais próximo,
o acompanhamento individual pode ser um espaço seguro para isso.
Com presença, Susana Amaral